MARABÁ (PA) – Reportagens publicadas pela Revista AzMina entre os dias 23 e 29 de julho de 2024 trouxeram à tona denúncias graves de violência obstétrica, mortes maternas e óbitos neonatais no Hospital Materno Infantil (HMI) de Marabá, maior maternidade pública da região de Carajás. As matérias ganharam repercussão nacional e escancararam um cenário alarmante da saúde pública no município.


As investigações jornalísticas fazem parte da série especial “A dor da maternidade no Brasil”, produzida pela AzMina com apoio do Amazon Center for Human Rights (ACHR) e de redes feministas da região Norte. O material se baseia em depoimentos de vítimas e familiares, documentos oficiais, e dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, além de registros de audiências públicas realizadas pela Assembleia Legislativa do Pará (Alepa).
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🔍 Relatos que chocaram o país
Uma das histórias mais impactantes foi a da jovem indígena Yapê Rê Anambé Guajajara, de apenas 17 anos, que morreu durante um parto induzido no HMI, em março deste ano. Seu bebê nasceu com sinais de ferimentos graves e, segundo a família, o atendimento foi desumano. O caso chegou ao Ministério Público e à Câmara dos Deputados, com o apoio da deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG).

Outro caso é o de Tereza Bianca Nunes, de 23 anos, que morreu em outubro de 2023 após sofrer perfuração intestinal e hemorragia durante o parto. Seu bebê nasceu com fratura no braço. A família denuncia negligência e falta de atendimento adequado. Ambos os casos constam em sindicâncias internas do hospital e também foram levados à Promotoria.
📢 Repercussão institucional
Em audiência pública realizada em junho na Alepa, cerca de 140 pessoas estiveram presentes e mais de 15 relatos de violência obstétrica e neonatal foram apresentados. O evento resultou na decisão de encaminhar um dossiê de denúncias ao Ministério Público Federal, ao governo federal e à Organização das Nações Unidas (ONU).

A deputada estadual Lívia Duarte (PSOL-PA) declarou que o hospital “não reúne condições dignas” para atendimento humanizado e propôs a criação de uma frente parlamentar sobre o tema, além de um canal de denúncias exclusivo e políticas públicas específicas para o combate à violência obstétrica.
📈 Números alarmantes
De acordo com dados obtidos pela equipe de AzMina junto ao Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) e ao próprio hospital via LAI, o HMI de Marabá registrou 465 mortes fetais e neonatais entre 2020 e o início de 2025. Apenas em janeiro de 2025 foram 406 partos, com 24,4% das pacientes vindas de outros municípios, sem regulação ou prontuário completo.

Apesar de a Secretaria Municipal de Saúde alegar que os números acompanham a média nacional, os dados revelam falhas no pré-natal, falta de leitos de UTI neonatal, sobrecarga da equipe e atendimento abaixo dos protocolos do Ministério da Saúde.
🏥 Estrutura precária e promessas da gestão
O HMI realiza cerca de 600 partos por mês, com mais da metade dos atendimentos destinados a gestantes de fora de Marabá. A unidade não possui UTI neonatal, tem apenas seis leitos de cuidados intermediários (UCI) e dois do Método Canguru.
Segundo a Secretaria, foram adquiridos aparelhos de cardiotocografia, houve capacitação de profissionais e ampliação do Banco de Leite. Ainda assim, a estrutura é considerada insuficiente, e a própria gestão admite que o hospital trabalha acima da capacidade.
👉 Leia a nota oficial da Secretaria Municipal de Saúde de Marabá
⚖️ Um debate público urgente
As denúncias da AzMina, agora com repercussão nacional, evidenciam a urgência de políticas públicas que garantam o direito ao parto seguro e humanizado. O contexto social de Marabá, somado ao subfinanciamento da rede pública e ao abandono das gestantes indígenas e negras, forma um retrato sombrio do que especialistas já classificam como violência institucionalizada contra mulheres e recém-nascidos.

O material da AzMina também questiona a falta de ações estruturantes por parte da prefeitura de Marabá e cobra transparência sobre os processos administrativos e sindicâncias abertas desde o ano passado.