Uma prática que vem se tornando rotina na gestão do prefeito Toni Cunha (PL) volta a chamar atenção nos bastidores da Prefeitura de Marabá: o uso recorrente de adesões a atas de registro de preços para viabilizar contratos milionários sem a realização de licitação própria no município.

Segundo informações obtidas junto a fontes internas da administração, uma das últimas decisões do então secretário de Obras, Ítalo Ipojucan — que deixou o cargo para se dedicar à pré-campanha da filha, a primeira-dama Lanúzia Lobo — teria sido a articulação para adesão a uma ata do município de Belém que ultrapassa R$ 239 milhões (R$ 239.258.209,25), voltada para serviços de pavimentação, drenagem e infraestrutura urbana.

Ainda de acordo com as fontes, a orientação dentro do governo seria evitar, ao menos neste primeiro momento, a adesão total do valor, optando por um recorte inicial de cerca de R$ 100 milhões, numa tentativa de reduzir o impacto e a visibilidade da contratação junto aos órgãos de controle.

O modelo adotado — embora legal quando respeitados os critérios — levanta questionamentos pela frequência e pelo volume dos contratos, além de favorecer empresas de fora do município, em detrimento de concorrência pública ampla que poderia incluir empreiteiras locais.
A ata em questão tem como principal integrante o Consórcio Infravias, liderado pela empresa Terraplena LTDA, velha conhecida no Pará e que carrega um histórico controverso. A empresa já foi alvo de investigações do Ministério Público e da Polícia Federal, inclusive na chamada Operação Plenitude, que apura um suposto esquema de desvio de até R$ 1,7 bilhão em recursos públicos no estado.
Além disso, há registros de decisões judiciais envolvendo a empresa por irregularidades em processos licitatórios, suspeitas de favorecimento, além de condenações na Justiça do Trabalho por infrações trabalhistas e até episódios envolvendo litigância de má-fé.
A movimentação para contratação ocorre em um momento delicado dentro do próprio grupo político do prefeito. Empresários e empreiteiros locais, inclusive alguns que apoiaram financeiramente a campanha de Toni Cunha, estariam insatisfeitos com a falta de espaço nas contratações da atual gestão.
Nos bastidores, cresce também a pressão relacionada à pré-campanha de Lanúzia Lobo. Relatos apontam dificuldades na consolidação de apoios políticos e financeiros, com promessas ainda não cumpridas a lideranças da região, o que aumenta a tensão dentro da base governista.
A possível adesão milionária, nesse contexto, levanta dúvidas não apenas sobre a estratégia administrativa adotada pela Prefeitura, mas também sobre os interesses políticos que orbitam decisões envolvendo uma das secretarias mais robustas financeiramente do município.
Enquanto isso, a gestão segue apostando em mecanismos que evitam a licitação tradicional — prática que, embora prevista em lei, quando utilizada de forma recorrente e em grandes volumes, tende a atrair o olhar atento dos órgãos de fiscalização.
