Durante anos, quando presidiu a Associação Comercial e Industrial de Marabá (ACIM), Ítalo Ipojucan ficou conhecido por defender com firmeza que grandes obras e empreendimentos instalados no município priorizassem a contratação de empresas locais. Em debates públicos sobre projetos como a duplicação da Estrada de Ferro Carajás, construção de pontes e outros investimentos, o discurso era sempre o mesmo: o dinheiro precisava circular em Marabá, gerando emprego e renda para os empresários da cidade, desde serviços de transporte até alimentação, locação de veículos e fornecimento de materiais.
Agora, porém, a realidade da atual administração municipal tem despertado questionamentos justamente por caminhar em sentido oposto ao discurso que marcou a trajetória de Ipojucan. A gestão do prefeito Toni Cunha já acumula mais de R$ 300 milhões em contratações realizadas por meio de adesões a atas de registro de preços, sendo a maior parte destinada a empresas sediadas fora de Marabá e, em diversos casos, até mesmo fora do estado do Pará.
A situação chama atenção porque, apesar de Ítalo ter anunciado afastamento para atuar na campanha eleitoral da filha para deputada estadual, seu nome continua sendo apontado nos bastidores como uma das principais influências nas decisões relacionadas à Secretaria Municipal de Obras. O cenário acaba alimentando cobranças por coerência entre o discurso histórico de fortalecimento da economia local e as escolhas adotadas pela atual gestão.

Outro ponto que desperta debate é o silêncio da Associação Comercial e Industrial de Marabá. A entidade, que no passado cobrava insistentemente a valorização das empresas marabaenses em grandes contratos públicos e privados, ainda não adotou uma posição pública contundente diante do volume de recursos municipais destinados a fornecedores de outras cidades e estados.

O silêncio da atual presidente da Associação Comercial e Industrial de Marabá (ACIM), Nilva Olivi é ensurdecedor. Recentemente, a entidade divulgou nota pública em defesa de uma empresa condenada pela Justiça do Trabalho. No entanto, até o momento, não houve manifestação da associação sobre o elevado volume de contratos da Prefeitura com empresas de fora de Marabá, situação que levanta questionamentos entre empresários locais sobre a falta de um posicionamento firme da entidade em defesa do fortalecimento da economia e dos fornecedores do próprio município.
Para empresários locais, a discussão vai além da política. O que está em jogo é a permanência de centenas de milhões de reais na economia de Marabá. Quando contratos dessa dimensão são direcionados para empresas de fora, parte significativa dos empregos, da arrecadação e da movimentação econômica deixa de beneficiar o município.
Diante desse cenário, cresce a expectativa para que a Prefeitura esclareça os critérios técnicos utilizados nas adesões às atas de registro de preços e explique por que empresas marabaenses tiveram participação reduzida nas contratações. Ao mesmo tempo, aumenta a cobrança para que lideranças empresariais que antes defendiam a valorização do comércio local mantenham a mesma postura agora que o poder público está sob influência de um grupo político com o qual possuem proximidade. Afinal, o discurso de fortalecer as empresas de Marabá continua valendo ou ficou restrito ao período em que a cobrança era dirigida aos outros?
